Quando alguém pergunta sobre uma candidatura a uma inteligência artificial, recebe uma resposta que seleciona fontes, resume informações e pode destacar determinados nomes. A qualidade dessa síntese importa: um cargo desatualizado, uma referência pouco confiável ou uma comparação sem contexto podem comprometer a informação que chega ao eleitor.
O estudo Boca de IA, do ITS Rio, documenta problemas nesse processo. Ele permite discutir integridade da informação eleitoral e levantar perguntas sobre presença digital institucional. Não permite, sozinho, concluir que nenhuma campanha trabalha o tema ou medir o efeito dessas respostas sobre o voto.
O que a pesquisa efetivamente encontrou
Na terceira rodada do Boca de IA, com coleta entre 10 e 12 de junho de 2026, a média de respostas com ranqueamento foi de 79%. O estudo examinou sete ferramentas e incluiu perguntas sobre governos de dez estados, entre eles o Paraná.
Essa edição registrou referências oficiais em 33% das respostas e fontes informacionais em 71%. Esses indicadores não são categorias necessariamente exclusivas. O relatório também documentou respostas do Gemini que apresentavam Romeu Zema e Ronaldo Caiado como governadores em exercício, em desacordo com a situação descrita pelos pesquisadores para o período da coleta.
Há uma edição posterior. Segundo notícia do MPF publicada em 24 de agosto de 2026, a quarta rodada, com dados coletados em julho, encontrou ranqueamento em 90% das respostas analisadas, alucinações em 16% e referências oficiais em 39%.
O recorte também mudou: a quarta rodada passou a abranger as 27 unidades da Federação. Por isso, a diferença entre 79% e 90% não deve ser atribuída exclusivamente a uma piora das ferramentas sem examinar a comparabilidade entre as amostras. Os percentuais descrevem os testes realizados, não todas as conversas de eleitores com IA.
O MPF relaciona os achados à Resolução TSE nº 23.755/2026, que estabelece restrições ao ranqueamento, à recomendação e ao favorecimento de candidaturas pelas plataformas. O foco desta análise é a qualidade da informação disponibilizada ao público.
Interesse em consultar IA não é decisão de voto delegada
Uma reportagem do Correio Braziliense sobre levantamento do Projeto Brief informa que 62,9% dos entrevistados consideram utilizar IA para pesquisar sobre candidatos. É uma disposição declarada: não significa que esse percentual já use a ferramenta para essa finalidade ou entregue a ela sua decisão de voto.
A distinção é essencial. A intenção de uso ajuda a formular perguntas sobre informação eleitoral, mas não comprova impacto nas urnas. Para dimensionar o dado, também é importante consultar a metodologia original do levantamento, além da reportagem.
Onde GEO entra nessa discussão
GEO, ou Generative Engine Optimization, é um termo usado no marketing para o trabalho de visibilidade em respostas de sistemas generativos. No contexto institucional, a discussão relevante aqui é a disponibilidade de informações corretas, atualizadas e verificáveis sobre pessoas e organizações.
Há perguntas distintas: como a IA responde, quais fontes utiliza e o que as instituições fazem para manter seus dados públicos confiáveis. O Boca de IA investiga o comportamento das ferramentas. Seus resultados não constituem uma auditoria dos sites, fornecedores ou processos internos das campanhas.
O que permanece como hipótese
Na pesquisa de fontes públicas que embasou este artigo, não identifiquei casos documentados de campanhas presidenciais ou paranaenses aplicando GEO deliberadamente. Esse levantamento é exploratório, não exaustivo, e não inclui acesso a briefings ou contratos internos.
Minha hipótese é que exista uma lacuna entre a atenção dada ao uso de IA e o cuidado com a forma como informações institucionais aparecem nas respostas. A ausência de casos encontrados, porém, não prova ausência de trabalho. Também não atribuo ao ITS uma recomendação de GEO ou um diagnóstico de descoordenação das campanhas que o relatório citado não demonstra.
Não há, nas fontes apresentadas, base para prometer um prazo fixo entre publicar conteúdo e aparecer em respostas de IA. Nem para afirmar que um ajuste no site resolveria, por si só, os erros observados.
A pergunta que permanece depois da eleição
O problema de informação pública desatualizada merece atenção também fora do contexto eleitoral. Para empresas e instituições, fica uma pergunta prática: os fatos publicados sobre sua atuação são claros, verificáveis e coerentes entre as diferentes fontes?
Essa é uma reflexão de gestão da informação, não uma conclusão estatística do estudo eleitoral sobre o mercado corporativo. A contribuição que podemos extrair da pesquisa é reconhecer o problema, explicitar os limites dos dados e evitar transformar uma hipótese plausível em certeza.
Por Raio Lima. Revisão de 16 de setembro de 2026: inclusão da quarta rodada, atualização das fontes e delimitação das hipóteses.